segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Contos de Fadas - O Fabuloso Livro Azul


Há algum tempo, em meados de 2013 - portanto, às vésperas da minha formatura - me deparei com a necessidade de pensar em um tema para a minha Monografia. 
Essa época foi muito turbulenta. Estava no fim da faculdade e sem muita perspectiva. Alguns assuntos alheios à ciência do Direito me chamavam muito mais atenção.
Há tempos eu me pegava pensando na sociedade e na família, nas estruturas, no papel de cada indivíduo na formação de uma pessoa. 
Passei a entender que o papel de uma mãe e de um pai é muito maior do que alimentar a criança e entregar para uma escola tomar conta.

Foi pensando nisso que comecei a entender que pais não deveriam delegar o dever da educação a estranhos, não em sua totalidade, não em alguns aspectos da educação como se dissessem: "Tome, eduque-o, isso aí é com você".
Atualmente as pessoas procuram praticidade, o ritmo de vida está acelerado demais para se reservar tempo e dedicação exclusivos para um assunto que pode ser resolvido com uma matrícula numa boa escola e a presença rápida na reunião de pais uma vez ou outra por ano

Além disso, há uma forte tendência do ser humano em escolher o caminho mais fácil. Toda tarefa que exige mais trabalho, mais atenção, mais sacrifício é terceirizada, delegada para alguém que se diz competente para exercê-la.
Mas temo que as consequências disso sejam terríveis.


"Educação" é um termo muito amplo, vejamos: 
  1. Ação ou efeito de educar, de aperfeiçoar as capacidades intelectuais e morais de alguém: educação formal; educação infantil.
  2. Processo em que uma habilidade se desenvolve através de seu exercício contínuo: educação musical.
  3. Capacitação e/ou formação das novas gerações de acordo com os ideais culturais de cada povo.
  4. Didática; reunião dos métodos e teorias através das quais algo é ensinado ou aprendido; relacionado com pedagogia: teoria da educação.
  5. Civilidade; conhecimento e prática dos hábitos sociais; boas maneiras.
  6. Delicadeza; expressão de gentileza, sutileza.
  7. Cortesia; amabilidade e polidez na maneira com que se trata alguém.
  8. Prática de ensinar, adestrando animais domésticos para as atividades que por eles devem ser praticadas.
  9. Educação Física. Formação de hábitos e comportamentos que incentivem o desenvolvimento corporal e mental, através de exercícios sistemáticos, jogos ou esportes.
(https://www.dicio.com.br/educacao/)

Por isso, considerando-a como fenômeno de alta complexidade na estruturação tanto da personalidade, da sensibilidade artística, desenvolvimento de talentos, no refinamento dos modos de tratar o próximo e de ver o mundo de um indivíduo, não é sequer razoável pensar que é dever apenas da escola cuidar da educação de alguém.

Existe a escolarização e existe a educação moral, isto é, aquela que estabelece juízo de valor, o que é certo e errado, noções de honestidade, integridade, etc. 
Este segundo tipo de educação é perpetuado pela cultura familiar, são aquelas influências que se têm no seio da família e que se diferenciam em cada núcleo. É indelegável e insubstituível.

Na escola pode haver orientações, mas não se compara ao que se aprende em casa, desde o berço. 
Até porque, como saber que tipo de valores tem os professores nas escolas? 
Você confia cegamente nas virtudes dos professores a ponto de entregar a eles a importantíssima missão de lapidar um ser em processo de desenvolvimento intelectual e moral?
A minha resposta para essas perguntas sempre foi NÃO.

Por essa razão - voltando à introdução - escolhi escrever uma monografia sobre Homeschooling (Educação Domiciliar), com uma crítica ferrenha ao entendimento de que tal prática se caracterize como "Abandono intelectual" pelo ordenamento jurídico brasileiro.
Esta foi uma semente plantada ao fim do meu curso que me transformou como pessoa, como mulher, como futura mãe.

No decorrer das minhas pesquisas sobre o Homeschooling passei a acreditar cada vez mais nos benefícios da educação em casa, desde tenra idade.

Lembrei-me da minha própria infância e da primeira das lições que meus pais e avós me deram, que mudou a minha vida para sempre: amar a leitura.

Minha mãe lia para mim e me dava muitos livros. Eu era apaixonada por eles, e ainda sou. Aprendi diversas lições importantíssimas. Contudo, muito além de gramática, coesão, interpretação e consequentemente maior facilidade na escrita, a leitura me deu muito mais: expandiu meus horizontes, ensinou-me as virtudes dos heróis, a maldade dos vilões, mostrou-me como o mundo pode ser cruel, e como o sofrimento e as dificuldades existem e devem ser superados para que se alcance a felicidade, que não vem de bandeja;  fez meu coração se encher de alegria, tristeza, angústia, gratidão - injetou em mim os sentimentos mais variados, inclusive frustração.

Quando olho as seções infantis das livrarias fico triste. Raramente encontro algo que considere bom. Na maioria das vezes penso que estão idiotizando nossas crianças com histórias insossas, que lhes priva da chance de entenderem a frustração, por exemplo. Acho que não preciso me aprofundar nisto: na próxima vez que tiver a chance de entrar numa livraria, dê uma olhada. 

Recentemente encontrei uma editora que está começando a lançar livros com contos de fadas das mais variadas partes do mundo, em suas versões originais para crianças. Este é o primeiro livro da coleção dos Fabulosos Livros Coloridos: O Fabuloso Livro Azul.

Comecei a ler este livro maravilhoso - Fabuloso, mesmo - e foi um choque até mesmo para mim. Percebi que eu estava altamente infectada com o mal do século: a negação do mundo real.

É preciso ensinar às crianças sobre quase tudo, inclusive sobre as partes feias do ser humano. É preciso ensiná-las que se frustrar é parte essencial da experiência humana. Que a felicidade exige a superação de obstáculos presentes inclusive dentro de nós mesmos, e que não é algo inerente à vida.

Num mundo em que não se pode mais dizer não, em que não se aceita que as adversidades e que o sofrimento fazem parte da vida, tudo se quer, mas nada se sacrifica, o resultado só pode ser desastroso.

Sem o mundo cor-de-rosa insosso em que estão inserindo nossas crianças, o Fabuloso Livro Azul traz os contos de fadas da forma como eles foram criados (pelo menos o mais próximo possível disso), já que a sua finalidade era, é, e sempre será, a de passar lições morais, valores, virtudes e ensinamentos para a vida.

Se maquiarmos demais os contos, alterando-os substancialmente, ferimos de morte a sua a finalidade. É como diluir remédio amargo em muita água com açúcar. Perdemos também a intensidade das histórias, e todo o leque de sentimentos que seriam inseridos na mente dos pequenos. 

Tudo isso é importante. Muito importante.

Então, decidi procurar por livros que sigam essas idéias. Sigo me recusando a deixar que me idiotizem mais do que já o fizeram, muito menos deixarei que façam isso aos filhos que ainda nem tenho.

Sim, ler o Fabuloso Livro Azul me fez acordar para uma realidade assustadora: eu me deixei ser infectada pela falácia do mundo cor-de-rosa. Mas nunca é tarde para acordar.

Caso tenha se interessado, deixo aqui o link para você conhecer este projeto da Editora Concreta: http://livrariaconcreta.com.br/loja/homebooks/o-fabuloso-livro-azul/

Em breve será lançado o Fabuloso Livro Vermelho, para a nossa alegria (haha!).


Na imagem: a belíssima ilustração de "A Bela e a Fera".